terça-feira, 26 de agosto de 2014

Sobre Kant, Schopenhauer, Arendt, um cara à mesa e a determinação de papéis de gênero e naturalização do “estado de degradação ao qual a mulher é reduzida por várias causas”.


Às vezes me questiono se estou sendo uma feminista neurótica quando me encontro diante de algumas situações. E na sequência, me questiono se é possível que haja uma feminista neurótica, ou apenas uma mulher que o machismo neurotizou com suas diversas faces... E essa neurotização, não coloco aqui como patologia, mas uma metáfora que tentaria justificar as feministas que são alvo de comentários do tipo “vê machismo em tudo”. E eu acho que, se levar em consideração toda a violência histórica contra a mulher, é possível sim, ver machismo em tudo. Até porque esse ‘tudo’ é questão de interpretação. E pra interpretar, usamos vários elementos que compõem nossa rede de conhecimentos: informações/experiências pessoais ou ‘aprendidas/apreendidas’ nos processos de formação cultural e social (e aí, poderíamos dividimo-nos entre os que simplesmente aceitam ou engolem conteúdos, e aqueles que questionam e/ou tentam modificar as diversas situações nas quais estamos inseridos).
Hoje eu vi aquilo que eu chamaria de um kantiano (mas não sei se é ou se estava apenas trabalhando com Kant naquele momento, mesmo depois do que se seguiu) usando de forma naturalizada algumas das informações perpetuadas por Kant na Filosofia contra direitos igualitários entre homens e mulheres, ou mulheres e cidadãos, ou ainda, contra humanidade para as mulheres.
“A mulher é a humanidade excluída da Humanidade.”
Essa frase é da Wollstonecraft, autora com quem trabalho. Mas quando ela fala de mulher, inclui todos os outros grupos (se é que posso chamar assim) historicamente excluídos. Pra Mary Wollstonecraft, o Feminismo é a reivindicação de humanidade para todos estes excluídos da Humanidade, e que estiveram atirados ao limbo histórico até hoje junto às mulheres. Mas essa também não é a questão no momento.
Então...
Hoje eu assistia uma mesa sobre “A ajuda aos pobres na Doutrina do Direito de Kant”, que para estas linhas é um tanto irrelevante – ao menos por enquanto, mas posso mudar de opinião até o derradeiro ponto final. Ao fim da apresentação, uma professora apontou uma fala do cara à mesa como falha. Nesta fala, ele apontou que Arendt e Schopenhauer consideravam o Kant dos anos 90 “gagá”, senil. E a professora disse que não era o caso de Arendt, pois esta usou e validou muitas obras do autor nesta época. E eis que surgiu a frase que começou a despertar o grito de Xena em mim: “É mesmo?! Pois faz muito mais sentido que a Hannah Arendt enxergasse o Kant senil do que o Shopenhauer.”
Penso que tive o mesmo sentimento de interrogação que a professora pareceu ter... Aquela coisa de “não entendi onde você quer chegar com essa afirmação, mas sinto um cheiro nada agradável..”
E a professora, ousada – ou não -, decidiu perguntar o motivo da afirmação. E o cara da mesa respondeu que pelo fato de Arendt ser mulher.
“Como assim? O quê o gênero tem a ver com ver Kant como gagá?”
Penso que essa frase traduzia nossa cara no momento... E vieram algumas frases do tipo: “As mulheres conhecem mais os homens que eles mesmos”, “Freud disse que queria ser mulher para descobrir o mistério de ser uma”, “Curioso como os filósofos constantemente colocam que gostariam de saber como é ser mulher, mas nunca quiseram saber como é ser homem”...
Nesse momento eu me identifiquei com a Chauí, naquele momento do Stand Up da Classe Média Paulistana, quando ela diz “tudo o que tinha de ter de ruim no meu ser... TUDO! Tudo aquilo que minha mãe tentou consertar e não conseguiu... Subiu e numa grande onda incontrolável...” Mas eu sou uma boa virginiana, observadora. E ele, o kantiano banal, que não era capaz de enxergar que o discurso em tom irônico expressava exatamente o que Kant pensava das mulheres. E ele estava reproduzindo, 200 anos após a morte de Kant. Tá, já vi um professor usar o discurso kantiano para justificar e manter “o estado de degradação ao qual a mulher é reduzida”... Aliás, isso é parte do título do capítulo IV do livro “Reivindicação dos Direitos das Mulheres”, de Mary Wollstonecraft, publicado em 1792. O nome do capítulo é “Observações sobre o estado de degradação ao qual a mulher é reduzida por várias causas”. Obra e capítulo com o qual estou trabalhando em minha monografia.
Mas voltemos à neurose, que na verdade, não passa de relações que se faz entre os acontecimentos presentes e o acúmulo de informações que a individua aqui, “neurótica da vez”, fez.
Por que esse pensamento de que as mulheres conhecem mais os homens?
Rousseau, com seu Emílio, afirma que a mulher foi feita para agradar o homem. E Kant, em sua Antropologia, naturaliza uma inclinação da mulher para agradar. E como se agrada alguém? Conhecendo esse alguém.
Espera-se – no caso do cara à mesa – que as mulheres conheçam os homens mais que eles mesmos, pois historicamente, nos educaram e, de alguma forma é possível afirmar que, ainda hoje, esperam que a gente cumpra essa “função natural” de agradar os homens. Então, por ser uma inclinação natural (!!!) têm essa expectativa a nosso respeito. E por que não afirmar que muitas de nós, mulheres, também não temos as mesmas expectativas a nosso próprio respeito? Não é o meu caso, mas penso que ainda há muitas mulheres com essas expectativas. O que é bem ruim.
E a questão do “querer ser o outro” traz outro problema: a desigualdade. Desigualdade no sentido ruim mesmo, de não reconhecer o outro. Por isso que há essa lenda sobre um tal mistério feminino... Que é impossível entender as mulheres... Realmente, se você tem problemas cognitivos, será impossível entender, não apenas as mulheres mas qualquer outra coisa nessa vida.
Sempre que escuto essa coisa de “não dá pra entender as mulheres” só me vem duas coisas a cabeça: 1. “Burro!” Pobre do asno pela comparação; 2. Será que quando nós, mulheres, falamos, os homens escutam como se falássemos igual a professora do Charlie Brown? (o que ainda me faz pensar que a debilidade seria dos homens que fazem essas colocações).
Wollstonecraft coloca em seu livro Sobre a Educação das Filhas, que, se as mulheres são intelectualmente inferiores aos homens é porque a educação nos foi negada. E que, além disso, nos foi negada desde cedo a participação na esfera pública. As mulheres que se destacaram tiveram que assumir posturas ditas masculinas, para se empoderarem e conseguirem espaços. Em geral, esses espaços conquistados, não o eram para as mulheres, mas para uma determinada mulher que, ainda assim, era vítima de declarações como as que Kant fazia de que “deveria usar barba para expressar a altivez que seu espírito almeja”.
Falar como um homem, estudar como um homem, ter o respeito de um homem... E aí me atrevo a trazer Madonna: “Garotas podem vestir jeans e ter cabelos curtos, porque está tudo bem se parecer com um garoto. Mas para um garoto, se sentir como uma garota é degradante, porque se pensa que ser garota é degradante.” Nenhum filósofo teve que “se portar” como mulher pra conquistar espaços. Muitas filósofas tiveram que “se portar” como homens para conquistarem espaços. E ainda assim, eram alvo de comentários como o de Kant.
Beauvoir nos mostrou bem que não existe mistério nessa tal existência feminina. Apenas nas lendas que os homens criaram para aquilo que não reconhecem como semelhante. “Torna-se mulher!”
Todo esse querer ser mulher para descobrir o caminho para as Índias não passa de um fetiche. Está muito longe de ser um processo de conhecimento. Mesmo que eu possa vir, a algum momento, considerar que determinados fetiches podem gerar algum tipo de conhecimento, mas também não vou me debruçar sobre isso aqui.
Existe uma História que nos diz o que devemos ser. Que diz aos homens também o que eles devem ser. Determinismo.
Determinismo que precisa ser destruído para que se possa ser o que quiser e quando quiser – e se quiser.
Por que era de se esperar que Hannah Arendt e não Schopenhauer reconhecesse o Kant dos anos 90 como gagá (não que o fosse, necessariamente)? Simplesmente por ser mulher e carregar todas essas expectativas historicamente construídas? Por carregar esses ‘mistérios’ femininos que nos tornam bruxas e feiticeiras?
Hora de parar de usar gênero pra justificar coisas que não se justificam mais. Não há mais argumentos para continuar a perpetuar estados de degradação para reduzir nem mulheres e nem homens e nem além. 
Mas a Feminista Neurótica Histórica aqui, considera pauta vencida com poesia de Caetano:

“Não me venha falar na malícia
De toda mulher
Cada um sabe a dor e a delícia
De ser o que é


Não me olhe
Como se a polícia andasse atrás de mim
Cale a boca e não cale na boca
Notícia ruim


Você sabe explicar,
Você sabe entender tudo bem
Você está, você é
Você faz, você quer, você tem


Você diz a verdade
A verdade é o seu dom de iludir
Como pode querer
Que a mulher vá viver sem mentir”



   




     

domingo, 13 de outubro de 2013

Pesquisa Acadêmica = Viagem na faixa!


Sou estudante de Filosofia da Universidade Federal de Pelotas/RS e tenho vulnerabilidade socioeconômica, o que me permite viver na Casa do Estudante e ter alimentação gratuita no RU. Resumindo: faço parte de um grupo de estudantes de graduação que não tem fonte de renda e nem ajuda e familiares.

Legal, mas o que alguém que vive nessas condições tem a acrescentar sobre viagens?

Bem, a verdade é que sei muito bem como ser vagabunda profissional, ou, mais precisamente, vagabunda acadêmica ou graduando. E resolvi, inspirada pelo blog Vagabundo Profissional (http://vagabundoprofissional.com/) compartilhar um pouco da minha experiência em viajar às custas da universidade.

Eu, sempre na estrada, com camisa da universidade pra facilitar identificação na carona.

Companheiro e vizinho Mário Jr, também devidamente identificado com camisa da UFPel.


Vejo muitas pessoas ao meu redor, dentro da universidade, reclamando que não podem viajar, seja porque não têm grana, seja por falta de tempo, seja porque não podem faltar na faculdade. A verdade é que, isso não pode ser usado como argumento quando você tem real envolvimento com a vida acadêmica e, especialmente, com a militância estudantil. E quando eu falo em militância não me refiro a envolvimento com partidos políticos, coletivos, DCEs ou centros acadêmicos. Pois você não precisa fazer parte destes grupos pra observar as condições educacionais, especialmente do ensino público, e lutar por melhorias.

Ok. Mas, outra vez: o que isso tem a ver com viagens?

Nenhuma dessas desculpas supracitadas podem ser usadas como argumento para não viajar durante a vida acadêmica. Não é todo mundo que tem grana pra férias. Mas qualquer um, com devido planejamento e comprometimento, consegue viajar na faixa e de quebra conviver durante alguns dias com pessoas de diversos lugares e hábitos diferentes, além de ter experiências acadêmicas que acrescentam o currículo, geram certificados e horas de atividades extracurriculares.

Carona com O Bailarino

Carona com Jerry Adriani (!!)

Chegada em Floripa, recepcionados pelos residentes da CEU UFSC, no ERECE Sul 2012


Em geral, todos os cursos – ou ao menos os mais tradicionais – possuem organizações estudantis a nível nacional, que constroem encontros e congressos de estudantes. Por exemplo, a Filosofia tem a ABEF (Associação Brasileira dos Estudantes de Filosofia), que organiza anualmente dois eventos: ENEFIL (Encontro Nacional dos Estudantes de Filosofia) e o COBREFIL (Congresso Brasileiro dos Estudantes de Filosofia), sendo este último de caráter organizativo e político. Mas em ambos, estudantes de Filosofia de todo o país se reúnem pra apresentar trabalhos, assistir palestras organizadas pelos próprios estudantes, com assuntos também escolhidos por nós, e, por vezes, escolhemos até os palestrantes.

Fora os encontros e congressos nacionais de cursos, ainda existem os encontros regionais.
No meu caso, que sou residente de Casa de Estudante, ainda conto com encontros nacionais e regionais de Casas de Estudantes, e mais os pré-encontros de Casas, tanto nacional como regional, com caráter organizativo dos encontros.

Mas de que adianta ter tantos eventos que acontecendo anualmente em cidades diferentes se não tenho dinheiro pra viajar?

Bom, essa é a parte importante.

Não se pode esquecer as Culturais diárias que os encontros promovem pra rolar o intercâmbio cultural

Alojamento com teto é luxo pra quem costuma acampar em posto de gasolina. Fotos do EREFIL Sul 2011 - UFSC


As universidades investem em estudantes que produzem e participam de eventos apresentando trabalhos e divulgando, assim, o nome da instituição. Em geral, quando se apresenta trabalhos ou se ministra atividades ou oficinas nestes eventos, ganha-se um certificado de apresentação de trabalho, além do de participação, e por vezes, conta-se com publicações de artigos. E isso é muito bem visto pelas universidades. Desta forma, fica fácil conseguir pela tua própria instituição de ensino, financiamento de passagens, diárias e até inscrição nos eventos. Tudo pra garantir que o estudante, ao divulgar seu trabalho, divulgue também, o nome da instituição.

E se um grupo grande de estudantes vai apresentar trabalho no mesmo evento, rola até de conseguir um ônibus por conta da universidade pra levar estes e outros estudantes interessados em participar do evento. Fora os eventos organizados pelo Movimento Estudantil, existem outros eventos específicos organizados pelas próprias universidades, não apenas para seus estudantes, mas aceitam trabalhos e inscrições de estudantes de outras instituições. Geralmente as universidades públicas possuem verba pra viagens para estudantes em participação de eventos. Busque informação, produza conhecimento e corra atrás. Às vezes até rola de pegar carona com outras universidades.  

Cumprindo a proposta, apresentações de trabalhos e troca de experiências acadêmicas são fundamentais

Aproveitando o dia livre pra conhecer as comunidades. Fotos do ENEFIL 2012 UFMA


E se você for morador de Casa de Estudante de alguma universidade, daí você tirou a sorte grande, meu amigo! Sim, ser pobre tinha que ter alguma vantagem...

Então, meu caro companheiro e vizinho residente de CEU, você precisa conhecer os seus direitos. Assistência estudantil não é só casa e comida (e por vezes, roupa lavada). O Decreto Nº 7.234, de 19 de julho de 2010, que dispõe sobre o PNAES – Programa Nacional de Assistência Estudantil, se apresenta com objetivos como “minimizar os efeitos das desigualdades sociais e regionais na permanência e conclusão da educação superior” e também “contribuir para a promoção da inclusão social pela educação.” Ou seja, meu companheiro de assistência estudantil, você pode requisitar a verba do PNAES da sua IFES pra financiar aquele trabalho que tu queria apresentar lá naquele congresso no Oiapoque ou no Chuí. Claro que vai depender se seus argumentos forem convincentes, o trabalho digno e ainda houver sobra dessa grana do PNAES na sua universidade.
E além disso, se você está de férias, mas não tem dinheiro pra viajar e nem se hospedar por aí, muitos eventos estudantis acontecem em feriados prolongados e nas férias (e se você participa de algum durante o período de aulas, com certificado na mão tu pode solicitar abono ou justificar as faltas). Além de tentar carona, seja na estrada (recomendo sempre!), seja com ônibus de universidades vizinhas, sempre rola a hospedagem solidária nas Casas de Estudantes. Mas se liguem! Não é pra qualquer um! Pode até ser que você chegue do nada numa CEU e peça hospedagem por uns dias e consiga. Mas é muito mais fácil se você, como residente de CEU,  participa do Movimento de Casas de Estudantes, e luta por melhores condições de moradia e de assistência estudantil. A militância te permite conhecer companheiros de Casas de vários lugares do país, o que pode te ajudar seja pra uma hospedagem durante um congresso, durante um período de provas, ou mesmo nas férias.

Intercâmbio musical no alojamento do ENEFIL 2011 UFF Niterói

Dia livre com rolê pela orla de Niterói, 2011


Normalmente os eventos possuem dias livres, que te permitem passear e conhecer a cidade onde os eventos acontecem. Hora de fazer turismo! E se você tiver espírito explorador, sairá das rotas tradicionais de turismo pra se arriscar conhecendo coisas novas e diferentes.

Pra vocês terem ideia, em três anos de faculdade, viajei na faixa, com tudo pago pela universidade para São Luis do Maranhão, São Paulo, Florianópolis, Rio de Janeiro, Brasília, Niterói, Rondonópolis, Porto Alegre (essas são as que me recordo). E ainda este ano estou pleiteando mais uma viagem para São Paulo, Salvador, Palotina e Cuiabá. Tudo isso apresentando trabalho de pesquisa. E pras férias, estou vendo carona com ônibus de estudantes pra Fortaleza, e com caminhoneiros – sempre parceiros dos estudantes – para Argentina e Uruguai.

Lutando por mais moradias estudantis nas universidades - ENCE 2013 UFRJ

Ilha de Paquetá, RJ

Oficina de Siriri, com o pessoal da UFMT, durante o ENCE 2013

Parque Nacional da Floresta da Tijuca


Portanto meu caro amigo, sua produção acadêmica pode te ajudar muito a viajar e conhecer lugares e pessoas, mesmo sem nenhum tostão no bolso. Ou melhor ainda, com tudo financiado pela universidade. Assim, você não precisa esperar se formar, entrar no mercado de trabalho e juntar dinheiro pra poder viajar. As oportunidades estão aí.

Procurem seus colegas de cursos pelo país, e as associações de estudantes do teu curso. Fique sempre ligado nos eventos acadêmicos espalhados pelo Brasil – e pelo exterior também. Se informe na sua universidade sobre auxílio viagem. E se você é atendido pela assistência estudantil, se informe sobre o PNAES (decreto disponível no site do MEC http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=607&id=12302&option=com_content&view=article).

Façam valer seus direitos e pé na estrada, não só pra passear, mas pra mostrar seu trabalho e trocar conhecimento. Isso também é formação acadêmica!

E não se esqueça de sempre estar ligado nas oportunidades de mobilidade acadêmica e de intercâmbios! 

Aldeia Maracanã, 2013

Almoçando na Universidade Indígena Aldeia Maracanã

Aldeia Maracanã, Rio.

 
Pôr do Sol em Pelotas durante o Pré-ERECE Sul 2013

Pré-ENCE 2013, UFMT Rondonópolis

Melhor companheira de viagens de todos os tempos, devorando os cocos de Rondonópolis/MT 

Pré-ENCE 2013, UFMT

Feira notura em Rondonópolis, devido ao calor que acontece durante o dia.
Aldeia Maracanã, 2013
Aldeia Maracanã, 2013

Povo do Matogrosso nos presenteando com uma bela peixada

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Feminismo pra quê e pra quem?



A mais rasa das mentes que opta por discutir ou questionar as posturas e ações Feministas de hoje, têm como conhecimento apenas a história do movimento do fim do século XIX pra cá. Isso quando possuem ao menos esse pequeno período da História do Feminismo como informação. Quem não tem a mínima informação ou interesse no movimento, lança sobre às ativistas toda uma gama de preconceitos machistas, construídos, estruturados e difundidos ao longo de toda a história da humanidade – fundamentada num eixo patriarcal e centralizador de poder.
Esse período amplamente difundido como a História no movimento feminista, nada mais é que apenas um período recente desta história. É o período em que o movimento ganha estrutura política e força enquanto movimento social, graças à popularização do anarquismo e do socialismo, e ao aparecimento das teorias marxistas, que ao se mobilizarem em prol do proletariado, buscando desestruturar o sistema de exploração capitalista – que tornara-se mais forte após a Revolução Industrial – abarcam também a questão das mulheres na sociedade.
As mulheres, até a Revolução Industrial, eram excluídas do mercado de trabalho, sendo elas destinadas apenas ao âmbito privado, pois assim, sem contato com a vida social, também estariam sem contato algum com o poder. Lembrando que poucas eram as mulheres privilegiadas, que podiam estudar e freqüentar as altas esferas da sociedade. E em sua maioria, isto era possível serem mulheres com poderes aquisitivos. O que prova que o preconceito de gênero só se agrava com o preconceito social: uma mulher com poder aquisitivo, poderia viver entre os homens, ter acesso à educação, viver sem casar-se...


Karina Buhr em seu blog-manifesto sexoagil.com: "Mulherzinha é o caralho!"

Enfim, a realidade é que o Feminismo antecede muito tudo isso que é apresentado como cronologia do Movimento. Mais que isso: o Feminismo abrange muito mais do que os direitos das mulheres.
Ao longo de toda a história da humanidade, os homens sempre se preocuparam e se ocuparam em encontrar um lugar, uma função social para as mulheres, condicionando-as ao cárcere privado em cavernas, casas, à obrigação da reprodução, à subserviência. Não só no âmbito prático, pois os filósofos também se ocuparam em encontrar esse lugar no mundo para as mulheres; em investigar uma tal ‘natureza feminina’ que, de acordo com eles, era dotada de ‘inferioridade intelectual’, e por isso, não poderia participar da democracia, da vida livre.
O grande e cultuado Aristóteles, em seu famoso livro “Política”, institui esse lugar para a mulher, fora na vida. A mulher é colocada junto aos escravos, estrangeiros, velhos, crianças e animais, num universo de posse. Estes deveriam ter um senhor, serem possuídos. Seres ‘incapazes’ de governarem a si mesmos e, por isso, deveriam ser governados.
Este livro de Aristóteles foi o que estruturou a Pólis grega e fundamentou o ideal de Democracia que se construiu nas sociedades ocidentais. Ainda vemos hoje os reflexos deste destino dado pelos homens livres aos excluídos da vida livre. Mais que isso, outros pensadores extremamente importantes pra história do conhecimento também contribuíram para esta construção de que a mulher é apenas mais uma das posses dos homens livres. Não só as mulheres, mas qualquer um que não pudesse pagar por para ser livre. Na Roma antiga, uma mulher que parisse três filhos homens ganhava a liberdade, por exemplo. E isso ficou ainda mais descarado com Kant, que em suas obras afirma que a mulher deve ter um dono, e que a função dela é ser enfeite e agradar ao seu possuidor. Daí o termo ‘mulher bibelô’.

Olympe de Gouges (1748-1793)

A Revolução Francesa prossegue com o ideal machista, e Rousseau, além de autor de uma obra que ‘ensina’ como educar um homem e como educar uma mulher – O Emílio, Ou Da Educação -, redige também a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), que cumpria exatamente o que prometia: declarar os direitos dos homens (gênero) e dos que podiam ser cidadãos. A prova de que o documento cumpria o que prometia é a gama de documentos surgidos após a publicação deste, reivindicando os direitos das mulheres e das cidadãs, assim como de camponeses e estrangeiros. Exemplo disso, a jornalista e escritora feminista Olympe de Gouges, que dois anos depois da apresentação deste documento sexista, escreve a Declaração dos Direitos das Mulheres e da Cidadã (1791), e foi guilhotinada por desafiar a autoridade masculina com seus escritos.

Mary Wollstonecraft (1759-1797)

Antes de Olympe de Gouges, a professora e escritora feminista inglesa Mary Wollstonecraft escreveu em 1790, A Reivindicação dos Direitos da Mulher, também em retaliação ao documento de Rousseau. E antes mesmo da Revolução Francesa, Poullain de la Barre, escritor e filósofo feminista, questiona a injustiça histórica em relação às mulheres, e faz uso dos princípios cartesianos para denunciar isso e reivindicar igualdade de direitos para as mulheres.

“Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a mesmo tempo, juiz e parte.” (Poullain de la Barre)

Sóror Juana Ines de la Cruz (1651-1695)

E, curiosamente, no século XVII, uma mexicana, revoltada com o fato de que não poderia entrar em uma universidade e que teria que se casar, opta por se tornar monja, pois desta forma, poderia se dedicar aos estudos, pesquisas e aos seus escritos. Foi desta forma que Juana Ines de la Cruz se tornou um ícone da Literatura Barroca Mexicana. Chamada por muitos de seus contemporâneos por Décima Musa, Sóror Juana produziu aquilo que muitos acreditam ser a produção literária mais rica do México, “permanece insuperável pela universalidade de seu pensamento, o brilho de sua sagacidade, a correção de sua prosa e a magnificência de sua poesia, combinado com o domínio insuperável do conhecimento alegórico e profundo de muitos assuntos.”
Sóror Juana possuía a mais rica biblioteca das Américas em seu tempo, graças aos inúmeros livros que ganhara de presente de inúmeros amigos intelectuais europeus e mexicanos. Mas infelizmente, a inquisição lançou os olhos sobre a importância que Sóror Juana tinha, por conta de todo conhecimento adquirido com anos de estudos, e censuraram e recolheram muitos de seus livros e instrumentos de pesquisa científica, condenando sua busca e transmissão de conhecimento.

FEMEN

Em todos esses casos que antecedem as “ondas” do movimento Feminista que surgem a partir do fim do século XIX, Sóror Juana Ines de la Cruz, Poullain de la Barre, Mary  Wollstonecraft e Olympe de Gouges pautavam a questão da desigualdade que atingia não apenas as mulheres. A reivindicação por cidadania clamavam pelo direito a cultura e educação para todos, e na mesma medida em que estas eram ofertadas aos poderosos. 
Outras pensadores mais contemporâneas reforçam essa solicitação por igualdade social e contra as múltiplas explorações, como Rosa Luxemburgo, Simone Weil e Simone de Beauvoir. Estas produziram material essencial hoje aos movimentos de mulheres.
Wollstonecraft apresentou o Feminismo como uma luta pelos direitos da humanidade, pois a mulher sempre esteve ao lado de outros grupos excluídos. O Feminismo é, inclusive, uma luta pelos direitos de quem não quer ter direitos. Se uma mulher no Oriente Médio quiser seguir viver sob as leis religiosas que governa seu país, que viva por ser uma escolha dela, e não porque aquelas leis lhe são impostas por uma tradição milenar. Que ela tenha direito de escolher se que viver sob os direitos humanos ou sob os direitos dos homens.

Bra-Burning (1968)
Marcha das Vadias - Porto Alegre (2012)

Após a queima de sutiãs de 1968, nada mais natural que a nova onda feminista seja marcada pelos seios à mostra. Penso que podemos declarar sim, que a nova onda foi iniciada e ela se dá de duas formas: 1. A constante construção de voz; e 2. Atos de inversão do uso do corpo.
A dominação machista sempre teve sua expressão máxima por meio da violência física contra mulheres, crianças, LGBTs e outros grupos. O corpo feminino, ainda hoje visto como objeto de desejo ou como mercadoria na gôndola do supermercado, agora é usado como arma. Nas Marchas das Vadias, que ocorrem em todo o mundo, e nos protestos do FEMEN, na Ucrânia e se espalhando pelo mundo também, vemos esse uso bélico do corpo feminino.

“Meus seios são duas bombas!”
Essa afirmação é de uma das ativistas do FEMEN e estudante de Economia, Aleksandra (Sasha) Shevchenko.

Aleksandra Shevchenko (Sasha) - FEMEN Ucrânia
 

O corpo que é visto com desejo de posse agora traz em si mensagens chamando atenção pra violência do Governo, da Igreja e do Machismo contra mulheres e contra toda a sociedade explorada. O mais tarado dos homens, ao centrar seus olhos nos seios expostos das Feministas de hoje, não poderão ignorar as mensagens escritas neles e em todo o corpo. Não poderão ignorar os atos e gritos contra a exploração. Se isso lhes conscientiza ou se potencializa sua ira, só saberemos com o tempo. Mas uma coisa é fato: como bombas, os seios feministas estão realmente chamando atenção para as causas levantadas. Mesmo que por meio de discussões sobre a validade de tirar a roupa ou não para defender uma causa. E nisso, já se discute a causa.
Nas Marchas das Vadias que tomaram as ruas do Brasil em 2012, muitas mulheres tiraram a camisa durante a marcha. Muitas dos casos, a marcha fora escoltada pela polícia. Mas por quê? Porque seios são realmente perigosos e a polícia precisa contê-los pra que a mulher não se sinta dona do próprio corpo, e passe a decidir sobre este. E isso desde a época de Napoleão, as reuniões de mulheres nas ruas são controladas pra que elas não se rebelem.

Repressão a ato machista durante Marcha das Vadias, em Brasília.

É o que acontecem com as gurias do FEMEN. Elas se rebelam contra as opressões, e assim como as Vadias em marcha, pautam em seu corpo e em seus cartazes, assuntos dos mais diversos: aborto, turismo sexual, corrupção, religião, pedofilia, economia, violência, meio ambiente... Todo tipo de controle e exploração machista, por meio do poder.
A nudez enquanto ferramenta sexual é banal. Mas enquanto forma de protesto, é criminalizada, pois ela denuncia, ela informa e chama pra luta. Como a Libeté, de Delacroix, portando a bandeira francesa com os seios à mostra e guiando o à revolução.

Le Liberté guidant le peuple (Delacroix)

“Seios são maravilhosos e símbolo de maternidade. As pessoas não deveriam se assustar ou se ofender com protestos de topless. É a mesma coisa que uma mulher que expõe os seios pra amamentar. Não é assustador. A diferença é que num momento os seios alimentam e em outro ele é uma arma política.” Diz Oksana Shachko, estudante de artes e ativista do FEMEN.
E o FEMEN, ao contrário do que muitos pensam, não é composto apenas por mulheres que se enquadram num padrão de beleza que também é construção patriarcal. Há mulheres de todos os tipos, como Alexandra Nemchivo, uma das principais ativistas ucranianas do grupo, e que faz questão de usar seu corpo como arma contra a exploração, dando prosseguimento e vida a mais uma das bandeiras do movimento feminista de todos os tempos: “Todas as mulheres são bonitas!”, “Mulher bonita é a que luta!”

Alexandra Nemchivo - FEMEN Ucrânia

Digamos que, a tal terceira onda do Feminismo não findou ainda enquanto uma quarta onda se impõe. Um movimento cada vez mais politizado e inclusivo, especialmente em relação às mulheres negras, lésbicas e trans. Mas também, um movimento que não teme o enfrentamento. Mesmo que sejam poucas, já é um número crescente. Podemos perceber isso com o número de Marchas das Vadias que aconteceram apenas no Brasil, em relação ao ano de 2011, assim como a quantidade de mulheres que tiraram a camisa nestas marchas em 2012 – um número infinitamente maior que em 2011. Também podemos observar isso com o crescimento ou expansão do FEMEN, que em 2008, contava apenas com a célula original, na Ucrânia. E hoje, quatro anos depois, foi criado o FEMEN Internacional, que conta com representações e ativistas em 27 países, inclusive o Brasil.

FEMEN em Davos
Oksana Shackho (FEMEN) durante a Euro Copa

“Usar a nudez como arma em protestos políticos é um ato educativo”, conclui Oksana, que em 19 de dezembro de 2011 foi sequestrada com mais duas ativistas da FEMEN, pela KGB bielorrussa, após um protesto no país. As ativistas ficaram em poder dos policiais, sofrendo abusos físicos e psicológicos por mais de 24hs, até serem abandonadas nuas numa estrada afastada da capital. 

Oksana mostra as marcas da agressão policial.

Durante protestos em Kiev, capital da Ucrânia, contra a exploração sexual promovida pelo evento, Oksana foi presa e ficou detida por cinco dias, e hoje responde a dois processos.
E quem há de negar isso em tempos de uso do corpo pela exploração capitalista? 
Nada mais coerente que, após a queima de sutiãs, o novo Feminismo seja feito de peito aberto! Mesmo que muitas ativistas não recebam bem ou não aprovem, ele já é um fato e tem chamado a atenção, visibilidade, e conquistando espaços por meio de pequenas discussões - algumas nem tão pequenas - e quebrado o silêncio ao enfrentar o moralismo, sem vergonha ou medo de mostrar o corpo colorido com mensagens de impacto, como uma verdadeira arma.
E para aqueles que temem o poder de uma mulher livre e de uma sociedade livre, realmente, os seios são bombas!




terça-feira, 12 de junho de 2012

Casa do Estudante UFPel X Mosteiro Budista: Qual a diferença entre universitários e monges?



O que se espera de um monge budista? O que se espera de um estudante universitário? O que se espera de um jornalista? O que se espera do Estado? E o que se espera do ser humano, independente das instituições e formações sociais?
A cerca de 2.600 anos, durante o Primeiro Concílio Budista, em Rajagaha, Índia, foram registradas as regras que um monge deve seguir em sua prática. São, até hoje, de acordo com o livro Vinaya Pitaka (Cesto de Disciplinas) da linhagem dos Theravadas (escola mais antiga e tradicional do Budismo), 227 regras para um monge (bhikkhu) e 311 para as monjas (bhikkunis). Elas foram postas para aprovação dos mais de 500 retirantes presentes no Concílio por um dos 10 mestres de disciplina do Buda Sakyamuni, Upali. Conhecido como o mais disciplinado dos monges, o ex-barbeiro, que recebeu a ordenação do próprio Buda e abandonou o sistema de castas indianas, mostrando como Sidarta Gautama, que um ser não é aquilo que a sociedade impõe que ele seja, mas sim um agregado de experiências que ele acumula e cultiva ao longo de sua existência.
Não que esse pensamento budista sobre o ser como um agregado de experiências acumuladas e cultivadas seja uma verdade absoluta - até mesmo porque a única coisa absoluta no budismo é a Impermanência - mas, quem há de negar que, das afirmações sobre a constituição do Ser, essa talvez deva ser a mais racional?
O que é um estudante universitário, senão o acumulo e cultivo de suas experiências? E quando falo de experiências que formam um universitário, o futuro agente social, não me limito à vida acadêmica quadrada, enclausurada e castradora. Mesmo na Idade Média, quando o modelo de Universidade que temos hoje foi fundamentado, os estudantes, em suas vivências acadêmicas, vislumbravam a importância da experiência com o outro, com o coletivo e com a vida, e de várias formas.
Hoje, o conceito de Universidade é, mais que nunca, de multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade e transdisciplinaridade. E sabem o motivo? Não somos seres isolados. Somos entes coletivos. Nossa formação acadêmica não deve ser pra formar apenas mão-de-obra especializada, profissionais capacitados... A Academia, assim como qualquer instituição educacional, é formar seres críticos, capazes de tomar decisões, de transformar sua sociedade e o mundo num lugar melhor, e isso inclui cuidar de si, cuidar do outro e cuidar do meio ambiente. 
Pouca coisa me parte mais o coração do que ver um estudante de Filosofia estar de acordo com o Sistema de mecanização das relações, afirmando que não está estudando pela transformação. É esse o perfil de estudante que os poderosos querem: um robô, capaz de obedecer ordens do Sistema vigente, que não cuida dos seres e do mundo, mas que cuida de interesses privados e lucrativos. Isso não é novidade, sei. 
E o que é essa relação com o outro?
São todas!
Amar, odiar, sorrir, chorar, lutar, calar, reivindicar, cuidar, ensinar, aprender, fazer festa, fazer guerra... Tudo a seu tempo, e de acordo com a necessidade e interesse coletivo. É ser Tom Zé: "Tô estudando pra saber ignorar / Eu tô aqui comendo para vomitar." 
Tanto monges budistas quanto estudantes universitários sempre estiveram a frente das lutas sociais, defendendo os direitos da população e do meio ambiente. Defendendo a importância destes. Sem medo.
Os estudantes são a massa trabalhadora de amanhã. E os monges tem por regra disciplinar, agir em benefício de todos os seres.


E essas relações nos formam muito mais que a Universidade. A vida acadêmica é envolvimento não só com os livros e as cadeiras de um curso, mas com as múltiplas pessoas que transitam por aqueles espaços e fora deles. A vida acadêmica também é impermanente. E o que seria dos estudantes se não se relacionassem e dividissem experiências? E aqui eu vou fugir das experiências com os livros e expandir ainda mais a cabeça: celebrar a vida com os amigos, com pessoas com as quais dividimos medos, anseios, alegrias, lutas e esperanças. Além de dividir tarefas, muitas vezes.
Em geral, o corpo discente de uma universidade é formado por jovens, seres com o sangue pulsando por vida e sede transformadora. Como passar por essa experiência sem provar todas as suas dores e alegrias?
Os moradores da Casa do Estudante UFPel convivem diariamente com o descaso da administração da universidade e da sociedade com os inúmeros problemas acumulados e maquiados em quase 40 anos de CEU. Extintores de incêndio vencidos, fiação exposta, intensas faltas de água, princípios de incêndio, superlotação, rachaduras, infiltrações, goteira, rebocos caindo do teto, camas frágeis e, inclusive, o despreparo da administração para lidar com emergências - a começar pelo kit de primeiros socorros da CEU, que se resume a uma caixa de algodão.
Não bastassem esses problemas, os moradores ainda são proibidos de se reunirem em números maiores que 4 após às 23h00, são impedidos de visitas, estão em constante vigilância - como se já não bastassem câmeras e controle biométrico. 
Colocam que a assistência estudantil é uma 'oportunidade', quando na verdade, é um direito de qualquer cidadão que comprove que não possui condições financeiras de se manter numa universidade. Mais que isso, a Casa do Estudante UFPel nunca foi um presente da instituição aos estudantes. A CEU é fruto de uma conquista! O prédio abandonado foi tomado pelos estudantes na década de 70. "Não é uma dádiva. É uma conquista!"
Nem as regras do Vinaya budista são tão severas. Nem a vida num mosteiro, tão insalubre. E isso levando em questão o voto de pobreza e mendicância!
A sociedade, o Estado, a imprensa, e a administração da universidade esperam que os estudantes que vivem em uma CEU façam voto de pobreza, não interajam, se tornem pedintes... Falam de nós, residentes, como se fossemos presidiários, seres privados do convívio em sociedade, criminosos que, por não terem condições financeiras de se manterem numa no ensino superior, devem ser privados de qualquer direito, que não seja estudar. 
E longe de receber mensalmente, como os presidiários, o auxílio reclusão, que custa R$ 915,05. Mais que o salário mínimo de um trabalhador. Mais que um auxílio moradia de um estudante. Mais que uma bolsa de pesquisa e extensão.
Desculpem-me, mas eu realmente não entendo isso. Muito menos quando a polícia aponta armas para estudantes, trabalhadores e monges que estão lutando por condições melhores de vida, inclusive para este policiais. 
Daí, quando estudantes festejam o simples fato de estarem vivos, são tratados como criminosos. E como se, entre universitários, a festa, a alegria, o vinho, o riso e a descontração fossem alguma novidade ou afronta à sociedade. 
Uma reportagem exibida a poucos dias numa emissora de TV exibe toda uma falácia preconceituosa em todo da vida de estudantes. Vocês poderão ver abaixo:


Após receber inúmeros comentários questionando o profissionalismo da repórter Luize Baini, o vídeo que se encontrava na página da jornalista foi apagado. Mas, como carioca esperto é aquele que usa sunga no lugar da cueca, salvamos o vídeo e postamos novamente. Pois como a jornalista deveria saber e praticar: "A informação não deve ser manipulada e nem omitida."
Contudo, sabemos como a nossa sociedade realmente vê os estudantes e residentes da CEU. E neste segundo vídeo, vocês poderão ver como a mensagem tendenciosa da repórter, da emissora, da administração da CEU e do cristão que levanta falso testemunho, soa aos ouvidos dos pelotenses:


A CEU UFPel foi casa pra muitos estudantes 'farristas', 'maconheiro', 'bêbados' e 'macumbeiros' que, quando a sociedade brasileira clamou por liberdade, inclusive de expressão, foram pras ruas e enfrentaram polícia pra que inúmeras pessoas, inclusive a jornalista Luize Baine, pudessem exercer o direito de se expressar livremente e, mais que isso, garantir a ela uma profissão.
Graças aos 'baderneiros' que não têm medo de serem felizes e de enfrentar o sistema pra defender os interesses coletivos é que a bonita pode disseminar preconceitos, inclusive de crenças - a liberdade de crença é direito constitucional. E graças aos 'baderneiros' também, que o cristão pode levantar falso testemunho sem ser crucificado em praça pública.
Luize Baini, César Borges, Jeferson Miranda, Stephanie e Carmem. Eu defenderei sempre o direito de vocês falarem o que quiserem. Tenho certeza que não só eu, mas estudantes, monges e qualquer um que acredite na liberdade como direito. Mas jamais aceitaremos que vocês nos neguem o nosso direito de liberdade, nosso direito de fala e defesa de acusações - que também é constitucional. Quando precisarem de nós pra defender o direito de vocês falarem a merda que quiserem, estaremos lá pra garantir esse direito, mas nos deem o direito de fala também.
Sabe uma semelhança crucial entre monges budistas e estudantes universitários?? Seguimos a risca o "verás que um filho teu não foge à luta". 
Sabemos da impermanência. Nós passaremos e outros virão. E queremos que eles sejam tão felizes ou mais em sua estadia na CEU UFPel e na vida. Seja bebendo vinho, como Jesus Cristo e seus Apóstolos. Seja bebendo leite como Buda e seus Arahats.